Não é culpa deles ou delas, mas há uma inteira geração de adolescentes e adultos que não consegue escrever três sentenças sem cometer, no mínimo, cinco erros de concordância. Fiz esta observação em aula para alunos de teologia que, em menos de dois anos, serão sacerdotes católicos. Eles não se magoaram. Alguns até confirmaram que em doze anos de escola nunca se lhes pediu uma redação ou uma análise de texto. Cresceram sem escrever. Dá-se o mesmo com candidatos a pastor evangélico ou pentecostal, segundo me dizem alguns irmãos dessas igrejas e segundo se pode ver e ouvir na televisão e no rádio.
Sentem-se limitados ao escrever, ao usar expressões idiomáticas, ao situar o verbo no singular ou no plural, ao usar substantivos e adjetivos ou justaposições. Transcrevo aqui uma frase, tirada de um aluno de segundo ano de filosofia, sem citar nome, nem escola nem cidade. Mas eis um pouco do que este futuro professor disse, ao falar do tema “A Família no Brasil de hoje”.
“Não quero me estender sobre um assunto já tão tratado na tal de mídia e nas igrejas, mas digo que o arquetípico familiar hoje não mais se sustenta, principalmente em se considerando-nos também nós, filhos de uma pequena minoria de poucos que ainda mantêm laços de fidelidade doméstica, mas que nem sempre apreciados por causa do poder do capitalismo que corrói os laços humanos e pessoais” ...
Redações ainda mais sem nexo são divulgadas na mídia. Com professores bem remunerados e com tempo para corrigir as provas, com salas de menos de 30 alunos, e com um sistema educacional que não exigisse o impossível do professor não aconteceria esta chocante constatação de agora. É humanamente impossível para o professor acompanhar tantos alunos.
Na redação de uma coluna de 2.220 toques, com tolerância para apenas 15 erros de concordância, pontuação e acentuação cerca de 75% dos alunos de curso superior não passariam. A escola da qual vieram não lhes ensinou a pensar. Em algum momento de nossa história mais recente, alguém neste país achou que o profissional não precisa pensar nem escrever direito e assassinou a língua portuguesa, a filosofia e a arte de raciocinar. Juntar palavras, eles juntam. O que não conseguem é dar-lhes algum nexo.
19/02/2009 SANTIDADE É PROFUNDIDADE
Algumas pessoas são profundas e nem percebem que são. Sua vida e seus conceitos se encarregam de mostrar que estamos diante de pessoas que pensam as suas ações e cumprem a palavra dada. Não são intuitivas, nem instintivas. Usam a razão e os sentimentos em dose certa. Vivem o binômio “Fides et Ratio”, como disse João Paulo II.
Atingiam a sabedoria do pensar e do agir. Para elas, folhas, flores, árvores, rios, mares, fontes, pessoas são sagradas. Vão ao porquê de cada obra de Deus. Como a palavra é expressão da pessoa, acabam, com o tempo, entendendo que a palavra também é sagrada. A de Deus e a que eles deram como sinal de amor ou de amizade. O seu “para sempre” verdadeiro. Algumas dessas pessoas são cultas, cultíssimas, outras nunca leram um livro, mas entendem o mecanismo da vida. Sim é sim e não é não. Talvez seja palavra que usam com humildade, quando percebem que não poderiam dizer nem sim, nem não. Os santos não mentem.
Algumas pessoas são santas porque souberam escolher e ser escolhidas. Muitas de nossas mães são santas porque foram se santificando ao consagrar seus corpos e suas mentes aos filhos que geraram e ao marido que amaram Também os nossos pais. Descobriram a fidelidade. Não houve e não há troca-troca neles. Seu sim foi sim e o seu não foi não e o seu talvez fosse talvez. Eles são quem são assim como Deus é quem é.
Os santos descobriram o essencial. Aceitaram e aceitam o periférico da vida, mas abraçaram o transversal. No dizer das coletas das nossas missas “não desprezaram o que passa, mas abraçaram o que não passa”. Não são nem serão pessoas tangenciais, como aquelas que, diante das dificuldades, fogem, escapam, desviam, mudam de rebanho ou de lado, trocam de trilho, saltam sem nenhum drama de consciência para outro estado de vida, mudam de estrada, de condução.
Para os santos, por mais difícil que seja a vida, não vale o seu projeto pessoal. Valem os outros. Se alguém tiver que sofrer, sofrem eles. São pessoas sólidas e vão fundo. Por isso é que são santas. São confiáveis. Ergueram casa sobre a rocha. Às vezes nem parecem santas, mas são. Você pode confiar nelas. Elas não trocarão você por outras. Não correrão atrás da mais nova onde, do mais novo sucesso e da mais recente novidade. Não são fundamentalistas, nem conservadores, nem inovadores, nem novidadeiros. Examinam cuidadosamente cada situação, pesam, cogitam e decidem não porque todo mundo foi lá, mas porque o antigo ou o novo fazem sentido. Tiram sabedoria do baú velho e do baú novo. (Mt 13,52) Sabem o que fazer com os remendos e com as roupas e os odres novos ou velhos. (Mt 9,17) Misturam o que podem misturar e separam o que não se mistura.
Sanctus vem de sancire, sancionar, selar, escolher, marcar. Como dizem os católicos nas missas, relembrando os seus irmãos falecidos, estão “marcadas com o sinal da fé”. Viveram e morreram tentando entender o mistério, mas nunca tiveram pressa em proclamar o que não assimilaram direito.
09/02/2009 A CIDADE BINÁRIA
Havia uma cidade que se voltara para o seu umbigo e nada que viesse de fora lhe servia. Tudo lá era binário. Permitia a existência de apenas dois times de futebol, dois de vôlei e dois de basquete. O esporte foi embora da cidade.
Só havia duas igrejas e nem o padre nem o pastor se reuniam. Os fieis das suas igrejas nunca pregaram nada juntos. A fé foi embora da cidade.
Só havia dois supermercados. A variedade e a economia foram embora da cidade. Só havia dois partidos políticos e a democracia também foi embora da cidade.
Só se tocava dois tipos de músicas nas duas rádios FM da cidade. A música foi embora. Só se autorizava dois tipos de arquitetura, a arte foi embora.
Então, um dia os cidadãos se reuniram numa das duas praças públicas da cidade e decidiram: queremos uma cidade pluralista. É um risco que assumimos. A vida não tem só dois lados. Então os defensores de só um ou só dois grupos foram embora fundar outra cidade onde tudo fosse binário...
01/01/2009 CARTA A UM FUTURO PREGADOR DA FÉ
Meu caro Teo, Paz inquieta para você também!
Aos vinte e três anos e com sérias dúvidas no seu coração que me parece honesto e reto para com Deus e para com a Igreja, você me escreve, pedindo uma palavra abalizada de pregador tarimbado por anos de púlpito e de microfone. Quisera eu! Penso ser mais carimbado do que tarimbado!
Palavra abalizada não tenho! Tenho, sim, uma palavra amiga de padre mais vivido, a um jovem que em menos de três anos será sacerdote como eu e, espero, melhor do que eu: a Igreja precisa crescer em sabedoria e capacidade na pessoa dos seus ministros!
Não posso falar de todos, mas, pelos venerandos sacerdotes que me formaram e pelos outros doutores, mestres, teólogos e párocos que conheci, - e pode crer que foram milhares-, guardo enorme respeito e admiração. Sou grato a todos eles. Se os ponho todos na balança das minhas memórias, a maioria tinha o justo peso de homens sensatos, lutadores, capazes de qualquer sacrifício pela Igreja e pelo povo de suas comunidades.
Não imagine que eram perfeitos. Não eram. Nem todos eram cultos e brilhantes, nem todos tinham todas as virtudes que se requer de um sevo de Deus. Alguns foram traídos pelo seu temperamento ou por falhas na formação, mas, num todo, eles emergem figuras dignas do meu respeito. Incluo até dois que deixaram o ministério, mas de maneira honesta e franca. Nunca perderam a ligação com a Igreja. Morreram amando-a, apesar de não poderem mais servir como sacerdotes e ministros por conta de um amor ao qual não lhes foi possível renunciar. Nunca os julguei. O celibato é um dom e um mistério. Também o matrimônio! É doutrina da Igreja, Teo!
A leitura das vidas de Abraão, Jacó, Davi, Eli, Elias, Isaias, Jeremias, Pedro, Paulo, os apóstolos todos, Agostinho, Jerônimo, e centenas de outros profetas e santos mostra-me, não pessoas imunes ao erro, e sim, homens que apostaram no céu. E não esqueçamos Sara, Rebeca, Ester, Judite, Tereza, Rita, Gertrudes e milhares de esposas, mães, virgens e mulheres consagradas que viveram da sua fé. Onde houve erro, ele foi corrigido e devidamente penitenciado.
Você me fala de algumas dúvidas sobre as leis da Igreja, sobre o celibato, sobre o papel do padre hoje, sobre o padre na mídia, o padre carreirista, o que não pensa no povo nem na Igreja, mas apenas em si mesmo, no seu dinheiro, o padre vencido por algum vício, o padre que envergonha o povo e sua comunidade e o padre que ofende gravemente a igreja com a sua conduta. E mostra medo de não superar os limites que tem, embora seus superiores o achem um bom candidato ao púlpito e aos outros ministérios.
A menos que você tenha escondido alguma coisa, - e não me parece ser o caso-, confie neles. São doze sacerdotes que o acham apto.
Mas você tocou num ponto que vale a pena enfrentar. “- Não sei se serei fiel”, diz você! “- E não sabe mesmo; ninguém sabe”, digo eu! Esta certeza você nunca terá de que, consoante a Palavra de Deus, vai perseverar até o fim. ( Mt 10,22) Ninguém pode saber se será sempre um servo bom fiel e prudente (Mt 24,45 ), nem mesmo aquele que foi fiel nas pequenas coisas ( Lc 6,10).
Não somos anjos, Podemos errar. Judas sucumbiu ao remorso e Pedro reagiu e aceitou o perdão, mas os dois erraram gravemente contra Jesus. Tíquico, Sízigo, Onésimo, Timóteo, receberam elogios de Paulo porque perseveraram. Com Paulo eles acreditaram que quem os chamou realizaria o resto com eles, desde que fizessem a sua parte. ( 1 Ts 5,24)
Moisés errou algumas vezes, mas mereceu o nome de fiel (Hb 3,2) No seu todo ele era íntegro, mas teve falhas de general e de profeta intempestivo. Elias também! Mandou matar quem ele derrotara em prece. Deus certamente não quis aquilo. Mas Elias era profeta! Pedro considerava Silvano um irmão fiel. (1 Pd 5,12) O Deus fiel e justo ( 1 Jo 1,9) perdoa os pecados de quem o busca com sinceridade. Um dia, o pregador cheio de limites se encontra ou se reencontra.
Fidelidade e retidão são virtudes que Deus dá, mas que se buscam. Vejo que você as busca aprendendo com os sacerdotes que acertaram e com os que erraram. Andou lendo bem a sua Bíblia e os documentos da Igreja. Perfeito ninguém é, mas somos chamados a sê-lo ao máximo de nossa capacidade, como Deus o é ao infinito. (Mt 5,48 )
O que o assusta são suas imperfeições e tendências ainda não controladas. Mas isso aconteceu com grandes santos que, um dia, descobriram o que é santidade. Não é não errar nunca, mas caminhar firme na direção do céu, na busca do melhor para os outros e na capacidade de ser segundo, terceiro ou até último, sem carreirismo, sem apego a dinheiro, fama, primeiro lugar ou vantagens.
Sua carta aponta para um jovem que fica feliz ao ver o sucesso dos outros e que nunca procura aplausos, nem vantagens. Sabe do seu lugar. Se puder, leia o tema que lhe envio anexo, com o título “Eu venho depois”. Talvez entenda que o sacerdócio é por aí.
Quanto aos que você percebe que precisam demais de dinheiro, de proeminência e de poder e, se podem, puxam o tapete, aprenderão. Contra eles há uma sentença severa em Mc 12,40 e em 1 Tm 6,10. Não deixe de ler. Não estão seguindo o caminho do servo bom e fiel. Querem muito! Querem demais. E não o querem para os outros. Querem para si! Quando a Igreja vira raia e pista de corrida você tem jóqueis, mas não ministros da Palavra. Não os siga.
Mas eles são poucos. A maioria é gente séria que escolheu a simplicidade e, assim que alguém acende um holofote sobre eles, fazem questão de redirecioná-lo para os outros e para o seu povo. Seja um desses sacerdotes.
No seu lugar, eu iria em frente! Admita seus limites e entenda que são todos corrigíveis. Aprofunde um pouco mais a doutrina da graça e verá que Deus a concede (Mt 10,8) para que a passemos aos outros, como a lua que não tem luz própria, mas ilumina as noites da terra com a luz que o sol lhe envia.
Paulo é mestre da graça e fala da “xaris” com enorme profundidade. Ele sabia do que falava, porque foi a graça de Deus que o resgatou dos seus erros. Ele sabia que o que houve com ele veio do céu, mas isso porque ele era sincero no que fazia. (Rm 12,3) Foi graça tão grande que até a liderança da igreja, que ele chamava de “colunas”, percebeu que Deus o queria seu pregador. (Gl 2,9) Deus viu que Paulo não tinha projeto pessoal. Ele queria realmente fazer a vontade de Deus. Então, Deus lhe deu um projeto. (2 Tm 1,9)
Espero que você consiga ser um sacerdote e um pregador da fé que não põe o seu projeto pessoal acima dos de sua Igreja, de sua diocese e do Cristo. Esta tem sido uma das cruzes de agora. Muitos pregadores com um projeto pessoal que a Igreja tem que engolir se os quiser ministros! Não hesitam em largar tudo, mas não abrem mão do seu projeto pessoal! Serão quem querem ser e não o que a Igreja quer que sejam!
Se você pensar mais nas metas da Igreja do que em si mesmo e na suas próprias metas, muito provavelmente será um bom pregador da fé e um ótimo servidor da Palavra. Que Jesus seja para você o Alfa e o Ômega!
Pela sua carta, parece que pregará “o Deus que vem” e não “o Deus que lhe convém”. Tem a minha bênção de velho e imperfeito pregador da fé!
03/12/2008 UM DEUS CONVENIENTE
Que Deus anunciamos? O Deus que nos vem ou o Deus que nos convém?
Muitos pregadores e fiéis trocaram o Deus que lhe vem pelo deus que lhes convém. Pode acontecer se é que já não aconteceu conosco! Que Deus anunciamos? Aquele que é quem é, ou aquele que é como nós imaginamos que seja, ou que gostaríamos que fosse? È cada dia mais perceptível no discurso dos templos e da mídia o anuncio de um Deus pessoal, visto apenas a partir do próprio ângulo. É como descrever uma cachoeira apenas pelo que vemos e não pelo que ela é e a partir das descrições de outros que a viram de outros ângulos. Não somamos a vista dos outros. Ficamos apenas com a nossa que achamos ser ou a única ou a mais verdadeira e condizente. Percebe-se em muitas pregações um discurso não a serviço do Deus que vem, mas do Deus que mais convém. Os pregadores nem sequer disfarçam duas intenções. O discurso é pragmático e utilitarista. Não anunciam o Deus que é quem é, mas o Deus que fez isto mais aquilo por eles e por meio deles. O verbo ser cedeu lugar ao verbo fazer. Deus faz acontecer e nós fazemos acontecer em nome de Deus, logo somos mais de Deus do que os outros. O que seria crer no Deus que vem? Seria aceitar Deus como Ele quer vir, como for da vontade dele, no tempo dele e o jeito dele. Pode até ser bonito querer apressar o tempo de Deus, mas nem sempre é gentil e respeitoso. Muitas vezes é inútil. No dizer de Jacques Attali “o tempo é a única realidade verdadeiramente rara, pois ninguém pode produzi-lo, ninguém pode vender aquele de que dispõe, ninguém pode acumulá-lo.” (Uma breve Historia do Futuro, 2008, pg 127, Novo Século) Crer no Deus que vem seria muito mais crer do que arrotar certezas de milagres, muito mais pedir do que garantir que Deus agirá deste ou daquele jeito. Uma coisa é apostar que Deus agirá de um jeito ou de outro e bem diferente apostar que agirá deste ou daquele jeito. Não se diz a Deus o que Ele fará, nem quando, nem a quem. Crer no Deus que vem seria viver o “Pai Nosso”, prece na qual, além de louvar o nome do Senhor, o fiel aceita a vontade dele do jeito dele no céu e na terra. É também pedir o pão necessário de cada dia, e não necessariamente riquezas e primeiros lugares e conta mais polpuda no banco. Seria ainda pedir perdão e perdoar. Seria admitir que sabemos pouco e querer saber mais sobre Deus. E o que seria anunciar o Deus que nos convém? Seria inventar com Ele uma cumplicidade que não existe usar seu nome em vão, trombetear nossa caridade e nossa capacidade de converter, curar e expulsar demônio. É pregar coisas como “traga o seu demônio que os o expulsamos” E se não houver expulsão será por culpa da sua falta de fé... É garantir ressurreições, três delas na mesma tarde e, além disso, alardear o milagre pelo rádio. Anunciar o Deus que nos convém é criar demônios da dengue, da malária, da diarréia, da unha encravada, da dor de cabeça, para mais facilmente o derrotar no templo e, assim, fazer o fiel pensar que foi a prece e a exortação do pregador que mandou os demônios de volta ao inferno. É chamar a atenção não para o poder de Deus, mas para o poder dado ao pregador. É derrubar pessoas com toque poderoso e chamar a mesma pessoa para dar testemunho de cura para atrair mais gente. É falar com o demônio ao microfone e solenemente expulsá-lo na frente da assembléia e dos telespectadores. É cobrar o dizimo e garantir que quem o paga vai para o céu e quem não o paga não cresce na vida. Crer no Deus que nos convém é dar o microfone a quem se declara curado e negá-lo a quem, dois meses depois, volta para avisar que a doença voltou! É prometer grandes prodígios na Rua X, numero 25, Bairro Y, às 3,15 da tarde. É adotar o discurso não compromissado de quem não pode criticar o governo que lhe concedeu aquele canal. Crer no Deus que nos convém seria anunciar revelações que não existiram, visões que não aconteceram, dar uma de profeta que não somos garantir que o anticristo já veio e está agindo nos outros, principalmente nos adversários... Seria super-exaltar os nossos santos e negar os dos outros. Seria sugerir ao povo que ande sem medo pela rua, porque os anjos de Deus cuidarão de cada fiel, mas ele mesmo, o pregador dispensar os anjos e andar com três ou quatro guarda-costas... Crer no Deus que nos convém seria vender óleo de cozinha como se fosse óleo santo das oliveiras de Jerusalém, medalhas com água do Rio Jordão, pó da Terra Santa. Seria vender uma água na qual Jesus não tocou. Quando o pregador não explica e não põe os pingos nos is, o fiel acaba atribuindo pontos ao tamanho da vela. Com facilidade se prega hoje na mídia um Deus conveniente que ajuda a angariar adeptos, porque o dízimo dado a Deus reverte em barcos, casas, empregos e sucesso financeiro. Será assim tão fácil? A Bíblia não diz que é sempre assim. Anuncia-se um Deus do tipo “dê que eu dou”, “ não dê para ver o que lhe acontece”... O mundo está cheio de porta-vozes com recados que Jesus não mandou dar, mas assim mesmo são dados porque é melhor um templo cheio de gente que não questiona ou exige provas do que um templo com cem pessoas cheias de perguntas e questionamentos. Gente dócil enche mais templos do que gente indócil, que não se deixa doutrinar aos gritos. Gente dócil prefere uma fé que não exija provas ao pregador. É altamente suspeito um templo onde o demônio fala ao microfone e é expulso, mas nenhum anjo ou santo pode falar. Como é que é? Entrevista-se o fiel possuído pelo demônio e não se entrevista o fiel possuído por um anjo? O demônio fala e os anjos e santos não falam? O inferno fala e o céu fica mudo? Sim, o céu fala coisas novas. Mas que coisas? As que a Deus convêm ou as que convêm às novas igrejas, ao movimento e ao pregador que precisa segurar aquele povo à sua frente? E então? A mídia muda ou não muda o discurso das igrejas? Se estiver lendo estas páginas em aula, debata e discuta! Quem muda quem na mídia?
20/11/2008 PERCORRI SEIS LIVRARIAS
Percorri ontem seis livrarias no intuito de encontrar títulos de livros sobre o assunto religião, cataloguei seiscentos e quarenta e dois livros das mais diversas igrejas e sobre os mais diversos temas. Todos queriam ensinar sobre Deus, sobre a vida, sobre a morte, sobre a convivência e sobre moral religiosa. Havia os romances, os livros esotéricos, os que pregavam certeza e os que propunham fé. Havia títulos incrivelmente absolutistas, garantindo felicidade total, apostando que Deus era do jeito que eles diziam, e aproveitavam pra atacar quem não pensava como eles.
Os autores que escrevem sobre religião, às vezes querem destruir mitos e religiões, alguns são francamente ateus, outros são serenos e religiosos e querem divulgar sua fé; outros são fanáticos e tentam impor o seu caminho que eles consideram a única verdade, o único jeito de crer. Há os argumentos nascidos de profundas elucubrações e pesquisas profanas; há os superficiais que já nas primeiras páginas mostram de onde vieram e onde querem chegar; há os testemunhais de quem garante que teve um encontro com a divindade e agora tem algo a dizer; há os questionadores e há os filosóficos que fazem pensar.
A moça que me viu vasculhando e procurando todos esses livros perguntou-me o que eu realmente queria, ao me ver anotando aqueles títulos e gravando os seus nomes e suas editoras. Respondi-lhe que anotava a preocupação do ser humano com a existência ou a não existência de Deus, ou com o relacionamento das pessoas entre si e com ele. Disse a ela que religião é importante. Felicidade, sexo e religião são os temas em maior número de livros têm nas estantes.
Ela riu e disse: - Pior é que é verdade! E as pessoas não vivem direito nem um ou de outro. O senhor, já escreveu alguns? - Mais de oitenta. - Em que categoria os colocaria?
Dei risada diante da franqueza da mocinha de vinte e três anos e respondi: - Meus livros questionam quem questiona, questiona quem não questiona e questionam quem se questiona. Escrevo para perguntar se Deus, fé, religião é isso mesmo que andam dizendo ou pode ser melhor. E ela sorrindo, disse: - Ah bom! Isso explica porque o senhor vem tanto aqui e está sempre procurando os novos lançamentos. E como vai se chamar seu próximo livro? - De Volta ao Catolicismo, respondi. -Por quê? -Porque muita gente foi embora sem saber por que foi muitos estão indo embora sem saber por que vão, muitos estão voltando sem saber por que voltam e muitos continuam confusos como antes. Estou escrevendo um livro que não tem todas as respostas nem poderia ter, mas que têm muitas perguntas que deveriam ser feitas por todos nós, a começar pelo papa, pelos bispos, pelos padres principalmente e por leigos e leigas como você.
Disse ela disse: - Não estou indo nem voltando. Acho que estou parada. Quando escrever sobre o seu livro pode me incluir entre os católicos sentados e parados, que nem ficam nem vão, mas, como pretendo me casar na igreja católica acho que está na hora de querer saber um pouco mais sobre esta igreja na qual fui batizada, só que não quero ser catolicona, fanática, nem católica intelectualóide: quero ser católica serena. Se tiver um livro sobre isso pode me dar, que é isso que estou procurando ou pelo menos de hoje em diante vou começar a procurar. Como eu estava gravando os títulos de livros, acabei gravando a nossa conversa e perguntei a ela se podia reproduzi-la. Ela concordou.